Um trecho:
Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro:
paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis
um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com
notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça,
cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.
O jornal é de São Paulo.Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou
de qualquer outro estado brasileiro.Eu disse “notícias interessantes” ? Em
nome da verdade,retiro o que disse.
Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo
quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta
do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do
jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de
notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que
aquele jornal tentava me dizer na primeira página.
O que o jornal me dizia, nos títulos ? Que o São Paulo “abre cinco pontos
sobre o Grêmio”. Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse
passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar
da Internet. “Chuvas em Santa Catarina matam 20″. Que novidade! “Obama
divulga nomes de cargos-chave”. Que novidade! “EUA podem injetar até
US$ 100 bi no Citigroup”. Que novidade!
Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.
Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta
de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem
sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.
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